Bebê índio morto

Em 30 de dezembro de 2015, Vitor Pinto, um bebê indígena Kaingang de 2 anos, foi assassinado por um homem branco enquanto comia no colo da mãe, Sônia. Mãe e bebê aguardavam na rodoviária de Imbituba, em Santa Catarina, enquanto o pai, Arcelino, a irmã Elionai e o irmão Jessé trabalhavam vendendo artesanato para turistas. A família havia iniciado o percurso de sobrevivência que repetia por vários verões: percorrer o litoral vendendo cestos, flechas, brincos e colares feitos ao longo do ano. Os planos eram comprar uma geladeira nova e material escolar para a filha mais velha. A morte de Vitor foi recebida com silêncio: não saímos às ruas, autoridades políticas não fizeram lamentos públicos, a grande mídia não se espantou.

Não são apenas assassinatos que fazem desaparecer crianças indígenas como Vitor. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2013, a taxa de mortalidade infantil indígena era de 43 mortes para cada mil nascidos vivos, enquanto a taxa geral no país era de 15. As doenças dos brancos chegam mais rápido às aldeias do que a assistência em saúde. Com terras invadidas e sobrevivência ameaçada, a vontade de existir também é fragilizada. Em 2014, entre os 135 casos de suicídio entre povos indígenas contabilizados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 53% foram de crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos.

O extermínio secular também se faz por lei. Em outubro passado, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 2015/2000, que transfere do Poder Executivo para o Congresso Nacional a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas. Se passar pelo plenário da Câmara e pelo Senado, a PEC subordinará de vez a demarcação aos interesses de elites do agronegócio, da mineração e da exploração hidrelétrica. Em dezembro, a presidenta Dilma Rousseff vetou integralmente o PL 5.944/2013, que estabelecia uma avaliação diferenciada para escolas indígenas e permitia que línguas indígenas fossem usadas nos ensinos médio, profissionalizante e superior, além do fundamental.

Vitor teve o pescoço cortado por um único homem, mas foi invisibilizado por multidões. É vida apagada e não chorada pela colonização genocida.





Vozes da Igualdade entrevista Ela Wiecko


 



O assassinato de Vitor Pinto, um bebê indígena Kaingang


 



A morte do bebê indígena e o silêncio genocida


 



Cartazes


 

Vozes da Igualdade entrevista Ela Wiecko

A morte de Vitor nos choca pela brutalidade e pela aparente falta de motivo. Ele era uma criança indígena de 2 anos e estava sendo alimentado pela mãe em uma rodoviária quando levou facada no pescoço, sem anúncio ou explicação. Mas indígenas são assassinados de forma violenta todos os dias no Brasil, e isso não é acaso. É possível dizer que Vitor morreu porque era indígena?

Eu acho que sim. Com as investigações, as últimas notícias dizem que esse rapaz [acusado do homicídio] fez isso porque participaria de uma seita satânica. Mas, voltando àquelas cenas [das câmeras de segurança que captaram o ataque], ele escolheu uma vítima, e não escolheu essa vítima por acaso. Ele escolheu uma vítima que é mais frágil, que, pelo fato de pertencer a um povo indígena, sofre de exclusão social. Eu acho que a gente talvez não consiga colocar como uma motivação direta; segundo se fala, ele tinha uma motivação direta de conseguir uma vítima para fazer um ritual. Então, em tese, podia ter sido outra. Mas, no momento da escolha, entra o preconceito e a discriminação em escolher uma vítima indígena. Pelas fotos, é possível ver que é um rapaz claro, branco. Então a motivação é um conjunto de fatores, mas esse conjunto, no caso, tem um grau de motivação do preconceito.

Os Kaingang são um povo que, pela expulsão de suas terras, tem hoje fontes escassas de sustento e sobrevive da venda de artesanato em locais de passagem, como a rodoviária onde Vitor foi morto. A família de Vitor é uma vítima da longa colonização de suas terras, e estava ali em busca da sobrevivência. Como pensar a morte de Vitor nesse contexto?

Essa morte tem uma simbologia muito grande, porque a criança significa em qualquer sociedade a sua reprodução. Então, no momento em que eles vão para um lugar que significa a busca dos recursos para sua manutenção, simbolicamente a morte da criança é como uma agressão que vai justamente contra a esperança de vida, de reprodução daquela sociedade. A esperança de melhorar sofre uma facada, é degolada, é a esperança que é cortada. Tanto os Kaingang como os Guarani vão com as crianças nessas perambulações [para vender artesanato], eles levam as crianças, e essas crianças, que fazem parte de todo esse esforço de sobrevivência, são sempre a esperança de uma vida melhor. É essa esperança que é apunhalada. A imagem do sangue é muito forte, eu vi o sangue na blusa da mãe e é muito forte essa imagem.

Chegamos a conhecer a morte de Vitor por algumas notícias, mas sabemos que inúmeras outras crianças indígenas têm mortes ainda mais anônimas. Como morrem as crianças indígenas no Brasil?

Com relação a esse tema da mortalidade infantil, isso é também bastante chocante. Porque no Brasil, com o compromisso de cumprir com os Objetivos [de Desenvolvimento] do Milênio [da ONU], a mortalidade infantil diminuiu nos últimos dez anos, mas com relação às crianças indígenas, as taxas permanecem muito elevadas. A possibilidade de uma criança morrer até os 9 anos é duas vezes maior se a criança for indígena, em comparação a uma criança não indígena. Com relação aos bebês, essa taxa é maior ainda. É difícil falar em estatísticas de comparação, porque são fontes diversas, mas, no conjunto dessas fontes, é possível afirmar que a situação é muito ruim. Eu até me surpreendi com uma notícia que foi dada, no final do ano passado, que dizia que a taxa de mortalidade dos bebês indígenas [no Brasil] era maior do que de alguns países da África, países [cujas taxas de mortalidade infantil] a gente costuma lembrar como é ruim. Mas no Brasil é até pior. Eu lembro de algumas vezes em que estive em terras indígenas, e a gente percebe a situação de desnutrição e das doenças causadas por parasitas. Esse realmente é o quadro geral: de desnutrição, que é a principal doença que enfraquece as crianças, e então outras doenças se seguem. Isso sem falar de outras causas externas, de agressão. Tudo está dentro desse contexto em que os povos indígenas vivem no Brasil, de discriminação e de violência. Esse fato com relação ao menino Vitor traz à luz essa temática das crianças indígenas, que é uma temática invisível, pouco estudada.

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