Entra novela, sai novela, e seguimos nos perguntando: vai ter beijo lésbico, beijo gay, beijo trans? Independente de quem beija, qualquer beijo é só beijo; o qualificador é uma provocação política sobre as histórias da telinha que decidem parar de fingir que afeto e planos de vida compartilhada só existem dentro da norma heterossexual da vida. A ousadia telenovelística, quando vem, é tímida: bitoca de dois segundos para, quem sabe, lembrar que é preciso haver pessoas variadas na vivência sexual em enredos que se pretendem verossímeis.
O autor Benedito Ruy Barbosa já disse que, em sua próxima novela, não vai ter nada disso, e justificou: "Odeio história de bicha. Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para as crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são tudo macho". A desculpa homofóbica de Barbosa é lamentável, mas a pretensão de se achar educador infantil nos surpreende também. Adoraríamos conversar sobre uma programação de televisão com responsabilidade educativa, mas para isso precisaríamos não confundi-la com uma cartilha de moral hegemônica e discriminatória.
“Arte e educação devem caminhar juntas” |
Benedito Ruy Barbosa não representa a família de Clara |
A novela da homofobia |
“Arte e educação devem caminhar juntas” — Bruna Costa entrevista Juliana Drummond*
A peça Desbunde, de que você é uma das diretoras, é inspirada em um movimento que contestou a ditadura militar pelo deboche, pela maquiagem e pela purpurina. É uma peça sobre a liberdade. Por que essa escolha?
O trabalho só toca [o outro] quando te toca também, quando você acredita naquilo, quando aquilo te impulsiona e te tira do estado comum. Nós já temos um sistema que nos manipula tanto que acredito que temos que ter uma inquietação, temos que nos provocar observando tudo, sentindo o que nos instiga, o que é bacana para compartilhar com os outros. Desbunde é um projeto que me tocou há cinco anos, quando havia um movimento da diversidade, da liberdade. Parece que as coisas estão mais latentes agora, está sendo excelente para todo mundo se expressar e se colocar, e exigir assim essa condição comum: vamos viver e respeitar as escolhas de cada um. O que o Desbunde mais prega é a liberdade, ele enaltece a liberdade, o respeito e o amor acima de todas as coisas. Eu acho que está faltando um pouco disso ultimamente, sem ficar nessa pequeneza de ficar observando, criticando e avaliando dentro dos seus valores, do que você foi criado, do que você recebeu como o que seria o certo e o errado. Nós vivemos coletivamente, você não é o único no mundo.
Como você avalia as recentes declarações do diretor Benedito Ruy Barbosa sobre não retratar personagens gays em suas novelas por respeito aos 80 milhões de espectadores?
Ele se colocou de forma equivocada, se colocou com muita força, agressividade, e de forma preconceituosa, porque, como uma pessoa que explora a arte, que trabalha com a arte, que é tão democrática e tão universal, não poderia ficar limitada a uma só vertente. Ele acaba se restringindo e se expondo de uma forma negativa. O preconceito no Brasil é maquiado, ele continua mascarado, e fica mais pesado, porque parece que está tudo ok, que estamos num grau evolutivo das relações humanas, dos valores humanos, mas acho que é onde o calo aperta, porque não está bem resolvido. Quando as coisas não estão claras, fica mais difícil conquistar o que precisa ser conquistado em todos os aspectos da diversidade, dos direitos humanos, dos nossos direitos e deveres.
A arte tem um papel social?
Uma das coisas que eu estou procurando fazer nos meus trabalhos é provocar, instigar e não levantar só uma única bandeira. Acho que é importante nós pararmos de ficar no delimitado das situações, da condição humana. Eu vou seguindo a minha intuição, aquilo que me toca, o que me provoca também. Acho que é necessário para gerar algo para o público. Nós que trabalhamos com criação podemos fazer novas leituras do que está aí, nada é novidade. O Desbunde não é uma novidade, por exemplo. Há cinco anos, tive esse insight vendo esses artistas que se manifestaram utilizando a arte como bandeira para reivindicar também direitos, fazer a sua luta, nos anos 1970, 1980. Não podemos ficar com esse pensamento retrógado, preconceituoso. É como Desbunde prega, temos que ser livres e ter senso crítico. Eu acho que agora temos muita liberdade para falar. As pessoas conseguem se manifestar, quem vive o preconceito na pele, quem passa por aquilo. Mas ainda temos muito a caminhar. Precisamos ter, dentro da televisão, canais esclarecedores. Arte e educação devem caminhar juntas.
*Atriz, diretora, coreógrafa e produtora de Brasília (DF). Dirigiu Desbunde — quanto mais purpurina melhor, show cênico-musical que homenageia o “desbunde” dos anos 1970 e 1980 no Brasil. O espetáculo, em que cinco transexuais contam suas histórias de vida na boate Desbunde, é inspirado no movimento que contestou a ditadura militar por meio do escracho aos “bons costumes”.
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