Imagens de um corpo negro, seminu e com marcas de violência brutal circularam pela internet nessas últimas semanas O corpo é de Verônica Bolina, travesti e negra. Detida pela polícia de São Paulo, Verônica não foi apenas contida ou agredida, foi desfigurada. A singularidade da violência sofrida por ela tem que nos provocar: estamos falando de uma discriminação específica, que violenta e mata pessoas trans. Estamos falando de transfobia.
A imagem eternizada do preconceito |
O que as imagens de Verônica gritam? |
Nomear transfobia |
O que mudou de uma imagem para outra? |
O enquadramento do horror |
Cartazes |
A imagem eternizada do preconceito
"Travesti fica desfigurada após ser presa", "Travesti arranca orelha de policial com a boca durante confusão na cadeia", "Foto de travesti desfigurada é divulgada na web". Essas são algumas das manchetes do horror que correram a internet na última semana. Veronica Bolina foi brutalmente agredida enquanto estava sob custódia do Estado, presa em uma delegacia. A polícia diz que houve tumulto, agressões múltiplas entre Veronica, outras pessoas presas, um agente penitenciário, e policiais. Sim, é preciso investigar, mas há pistas sobre o horror. As imagens de Veronica falam de uma violência que quis impedir que ela fosse como se apresenta, uma travesti.
Que há violência em cadeias e delegacias, não ignoramos. O que não é comum é a existência de registros dessas agressões. Muitos passaram a compartilhar as imagens com intenção de denúncia de uma crueldade transfóbica. Não sabemos quem fez as fotos. Talvez tenham sido feitas por pessoas que não estranhem a violência, mas o corpo de Verônica. Elas carregam o enquadramento do agressor: mostram o espetáculo de um corpo. Temos, eternizada, a prova do preconceito sofrido por travestis e transexuais no Brasil.
×Nomear transfobia
A imagem de Veronica grita crueldade e desespero. Se sabemos que o sistema carcerário é tormento para milhares de outras vidas negras, para Veronica foi de brutalidade singular: a violência que a atingiu não pretendia só machucar, mas desaparecer uma travesti. Seus cabelos longos e bem cuidados foram tosados para lembrar a masculinidade que deveria ostentar; seus seios foram expostos como se fossem de um homem; seu rosto, desfigurado até não guardar semelhança com quem Veronica se lembrava ser. O horror a que foi submetida tem nome certo: transfobia. Por desafiar o corpo de macho que outros definem ser o seu, foi torturada. Como travesti e negra ela não poderia existir: essa foi a sentença inscrita pelos agressores em sua carne.
Poucas de nós podem ver Veronica seminua, algemada pelos pés, estirada no pátio de uma delegacia e reconhecer-se na possibilidade de sofrer mesma violência e exposição. Por isso, entendemos o que significa "somos todas Veronica" como um chamamento político, mas há algo de sensível na frase. Só Veronica sofreu essa tortura, e "só" aqui diz muito: um corpo negro e travesti. Saber o que não nos vitima igualmente é um passo necessário para identificar e nomear a especificidade da violência que faz uns corpos mais disponíveis ao horror que outros. Mesmo que em nossa carne não pulse a mesma dor, podemos e devemos nos mover contra a discriminação que nega a sua vida. Faremos isso nomeando o acontecimento, dizendo transfobia. Nomear é uma forma de fazer Veronica existir contra o que a violenta.
×




Nenhum comentário:
Postar um comentário