O meu lugar no mundo não pode ser o mesmo que o seu, pois você pode me molestar. Então, me colocam em um lugar em separado, "exclusivo", para que você não me moleste. Assim é o vagão rosa, proposta já adotada no transporte público em algumas cidades brasileiras e também em outros cantos do mundo. Com o objetivo de proteger as mulheres de assédio e violência, governos decidiram segregá-las. O chamado vagão rosa pode ser algo sombrio para as mulheres, mas pode também ser garantia de mobilidade urbana em uma sociedade machista.
Vagão rosa: culpar ou proteger a vítima?
Propostas e projetos de lei estaduais para a implementação do vagão rosa pipocam nas pautas para análise de nobres deputados e deputadas. Atordoados com as dificuldades de reduzir a violência e investir em educação e segurança pública para permitir que mulheres exerçam seu direito fundamental de ir e vir, a solução vem por decreto e a estratégia é segregar. O Estado não consegue resolver o problema da violência e do assédio contra mulheres, então decide colocar todas em uma mesma caixa - ou vagão.
Mas e se as mulheres entrarem num vagão não-rosa, masculino? Estar no vagão “errado” justifica a agressão, culpabiliza a vítima? A proposta nos confunde: espaços exclusivos de mobilidade não garantem o fim da violência do gênero, mas podem ser alívio para quem precisa de transporte lotado nos horários de pico. Conheça nossas dúvidas sobre o tema no falatório da semana.
×Solução de emergência para a garantia de um direito
Mover-se de um ponto a outro da cidade sem medo não é ainda um direito assegurado às mulheres. Seja na rua, seja dentro dos transportes públicos, corpos femininos seguem vulneráveis à invasão masculina por toques desautorizados. A solução ambígua proposta em muitas cidades do país para diminuir a violência é a reserva de vagões de metrô ou trem para mulheres: segrega-se para proteger. A aposta não é na subversão das violências do gênero, mas em uma tática de sobrevivência. Se não é política de transformação da moral machista violentadora, ao menos é solução de emergência para garantia do direito à mobilidade.
A ideia de que seja preciso separar espaços para proteger direitos das mulheres ainda nos incomoda por princípio, e não hesitamos em negá-la como medida suficiente para o enfrentamento das desigualdades do gênero. Mas aqui é preciso diferenciar dois tipos de políticas: aquelas que visam alterar causas ou estruturas da violência, e aquelas que visam atender necessidades urgentes. Enquanto a vulnerabilidade dos corpos femininos em transportes superlotados for uma realidade, o vagão rosa será uma alternativa para que mulheres tenham direito à cidade.
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