Contra ou a favor, sim ou não, certo ou errado. Perguntas e respostas simples, dizem os questionários. Pesquisas de opinião querem rapidez na resposta e crenças da maioria. Mas a controvérsia pede calma, reflexão, e poucas vezes é pergunta sim ou não. Você é contra ou favor do aborto? "Sim, contra", diz a maioria. O que a resposta significa: a moral do aborto como crime ou a defesa da prisão para as mulheres que abortam? Nossa conversa é um pedido de cuidado sobre o que mostram as pesquisas de opinião.
Espiem que números curiosos. É sobre nós, brasileiros. |
Opinião do quê? |
Opinião do senso comum |
Opinião não desenha política pública |
Estranhando os números |
Cartazes |
Espiem que números curiosos. É sobre nós, brasileiros.
61% são contra a privatização da Petrobras
63% querem o impeachment da presidenta Dilma
80% são contra a legalização do aborto
80% são contra a legalização da maconha
56% não querem ver a maconha legalizada nem como remédio
86% são contra o desmatamento da Amazônia
87% querem prisão para os menores de 18 anos
56% foram favoráveis à Copa do Mundo no Brasil
85% querem ficha limpa para eleger parlamentares
46% querem pena de morte
…
Epa, de quem estamos falando mesmo? Dos brasileiros, nós dissemos antes. A mesma maioria do almoço de domingo ou do cafezinho no trabalho. Melhor ainda: da rodinha de cerveja no bar. A verdade é que não sabemos bem o que esses números representam e quem eles representam. São números, e números têm poder para querer ditar o certo ou o errado, a lei ou a prisão. Vejam um exemplo curioso de dois números. A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) mostrou que pelo menos uma em cada cinco mulheres já fez aborto aos 40 anos. Milhões de mulheres, para quem gosta de número grande. A PNA não perguntou se era certo ou errado abortar, perguntou quem já fez aborto. Na pergunta a favor ou contra, encontrou-se que 80% dos brasileiros são contra a legalização do aborto. Os números são diferentes, e para entendê-los é preciso atenção — em um, mediram-se práticas; no outro, opiniões.
×Opinião do senso comum
Pesquisas de opinião são armadilhas. O que se pretende descobrir quando se pergunta se as pessoas são contra ou a favor de questões polêmicas, como aborto ou legalização das drogas? As perguntas de sim ou não podem até animar debates de bar, mas pouco ajudam a dar respostas para os problemas do mundo. Antes de perguntar, já sabemos o resultado mais provável, porque confrontar as pessoas com opções de certo e errado só confirma velhos dogmas. Para decisões cruciais à vida, indagações circulares não servem: importam fatos e não opiniões. Importa, por exemplo, saber quantas mulheres fazem e quantas mulheres morrem por tentar fazer um aborto proibido e inseguro, mais do que saber quantas pessoas o condenam.
O que as pesquisas de opinião mostram é nada mais que a moral hegemônica: aquilo que as pessoas acreditam que deva ser respondido, e não o que elas de fato fazem. A estatística do sim ou não é poderosa; os números são grandes e metidos a explicadores, mas não falam sobre o real. O aborto que 79% da população rechaça, segundo pesquisa Ibope de 2014, ainda constitui a 5ª maior causa de morte materna e é um fato comum da vida reprodutiva de muitas mulheres, inclusive daquelas já mães e religiosas. Fazer as perguntas certas em temas sensíveis significa levar o real a sério: mulheres fazem aborto e mulheres morrem por isso. São essas evidências que podem e devem orientar políticas públicas.
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Um comentário:
Que blog lindo!! Estão de parabéns no conteúdo e na forma! Maravilhoso, fofo, mto bem feitinho! <3
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