Ela trocou a foto do Facebook — escolheu uma em que estava sorridente. “Macaca” e “escrava” foram alguns dos comentários sobre a imagem. Os xingamentos foram de pessoas desconhecidas, bastava a imagem de uma mulher negra feliz. Perto dali, no espaço sem fronteiras da internet, um falso anúncio de venda de recém-nascidos exibia a foto de outra jornalista negra. O anúncio era mentira, uma ofensa a uma mulher grávida. O racismo ganhou um novo palco: o do anonimato da internet.
Um país de mestiços cordiais |
Mentira isso de democracia racial |
Não vivemos em uma democracia racial |
Faladora convidada |
Um caso de racismo |
No Brasil existe segregação racial |
Cartazes |
Um país de mestiços cordiais
O que acontece quando alguém troca a foto de perfil no Facebook? Amigas curtem, outras comentam, a mãe ou uma tia fazem elogios. Para a jornalista Cristiane Damacena, a mudança da foto rendeu racismo. Cristiane é negra. E sua foto recebeu comentários ofensivos de quem acredita que a internet é espaço livre para discurso de ódio.
Outro caso recente: quando estava grávida do filho que acaba de fazer três anos, a também jornalista Raíssa Gomes tirou uma foto em que se vê uma futura mãe negra sorrindo para a câmera. Há dias, a foto foi usada em uma publicação de um perfil falso que dizia: “Vende-se um bebê! Como não achei Cytotec, eu e minha mulher resolvemos vender a criança”. O agressor se pretendia piadista, mas racismo não tem graça.
Os dois casos estão sendo apurados pela polícia e pelo Ministério Público como crimes de racismo. O senso comum se assusta: racismo como, se somos um país de mestiços cordiais? Racismo sim, pelas senzalas no passado recente e nas ofensas a Cristiane. Racismo sim, pelos corpos objetificados de Raíssa e seu bebê. Para quem insiste em negar a existência de racismo no Brasil, as redes sociais estão, infelizmente, cheias de provas.
×Não vivemos em uma democracia racial
Não, não somos uma democracia racial. Os urros de “macaca” e “volta pra senzala” recebidos por Cristiane em sua foto do Facebook não são explicados por genéricos maus modos ou maldade de alguns. A imagem de Raíssa grávida, falsamente divulgada como uma vendedora de bebês, também não encontra em sua cor mera coincidência. As duas jornalistas foram perseguidas e humilhadas pela cor de sua pele, e os comentários a que foram expostas refletem um Brasil em que se identifica e se valora diferentemente os corpos pelas cores que exibem. A narrativa da democracia racial pretende ignorar a discriminação por cor por uma tese da cordialidade: seríamos gentis e acolhedores, por isso misturamos todas as raças em uma brasilidade múltipla. O problema é que esse é o discurso de quem tem o domínio da palavra: o colonizador. Esse mesmo colonizador podia passear por senzalas, mas também açoitava escravas. Houve violência nas origens e há violência ainda na herança desse cenário de dominação. O mito da mestiçagem como fruto do afeto pretende dizer a Cristiane e Raíssa que elas não podem ser reconhecidas vítimas de uma agressão pela cor.
Por que as fotos das duas, lindas e felizes, provocam tanta raiva? Porque elas perturbam o conforto de quem acha que esses são atributos exclusivos da branquitude. A branquitude é o nome que se dá aos valores de ser branco, com todos os marcadores de poder que essa corporificação traz: a certeza de estar incluído em um padrão de beleza e de ser reconhecido em uma existência boa e bonita para a qual a aparência é condição suficiente. À negritude, resta apenas aquilo que pode se tornar mercadoria: a sensualidade das mulheres negras como mito do Brasil sedutor e o samba das mulatas de carnaval. Cristiane e Raíssa não se dispuseram a ser nada disso. Elas são mulheres felizes, uma em um vestido de festa, a outra exibindo a alegria da maternidade, ambas sorrindo para uma câmera à qual escolheram posar. A força, alegria e beleza das duas só são insuportáveis para quem acredita que o lugar delas é o das subalternas. Não há outro nome para isso senão racismo.
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