Nicole foi à praia. Conheceu o mar. Foi uma viagem linda, na companhia de seus pais e sua família. Essa poderia ter sido a história banal de férias de qualquer família, não fosse a discriminação. Nicole é deficiente, tem paralisia cerebral. Por isso, a companhia aérea disse que não poderia permitir seu embarque. Os pais de Nicole recorreram ao Judiciário para garantir que sua filha tivesse a chance de sentir as ondas do mar baterem em seus pezinhos.
E Nicole viu o mar |
Dizer proteção esconde a discriminação? |
Não há furos: foi discriminação |
Deficiência não é barreira |
Discriminação por deficiência não é proteção |
Cartazes |
E Nicole viu o mar
“Empresa barra viagem de menina.” “Pouso forçado nas férias.” Essas foram duas das manchetes sobre o caso de Nicole. A companhia aérea contratada para levar a família dela para passear achou que, por ter paralisia cerebral e sofrer convulsões diárias, a menina não tinha direito de viajar. A companhia dizia que não queria que ela corresse riscos de saúde durante o voo. O neuropediatra de Nicole desconhecia tais riscos. A menina é saudável e recebe todo o cuidado de que precisa de seus pais. O que ocorreu tem outro nome: discriminação. Os pais de Nicole brigaram na Justiça pelo sonho da família. Nicole conheceu o mar, e nem sequer espirrou durante os voos.
A equipe da Anis assessorou a família de Nicole no pedido à Justiça. O argumento, simples e claro, era o de que Nicole tinha sido discriminada e merecia estar em um mundo onde todas as crianças com deficiência pudessem ver o mar. A sentença da juíza não deixou dúvida: Nicole tem o direito de viver os bons momentos com sua família, como qualquer criança. A história nos deixa uma lição — preconceito travestido de proteção continua sendo preconceito.
×Não há furos: foi discriminação
Não temos dúvidas em afirmar que Nicole foi vítima de discriminação pela deficiência. O gesto que se escondeu sob a promessa de proteção não se justificou: a empresa aérea não gastou papel nem verbo para mostrar por que, afinal, a menina não poderia voar a Maceió. Nossa aposta é simples: a companhia não expôs suas razões porque não tinha nenhuma. A expressão “por razões de segurança” pretende ser um trunfo que encerra toda a discussão em nome de um bem coletivo incontestável. Mas temos de nos perguntar: queremos viver em um mundo em que empresas determinam a quais experiências da vida podemos ou não ter acesso, com base em riscos desconhecidos e nunca explicados? Talvez o caso não pareça tão grave para quem habita corpos considerados não deficientes. Mas Nicole também não quer pedir licença para existir. Ela não é as convulsões de que sofre e também não é um perigo aos outros. Ela é uma criança que tem o direito de ser reconhecida e acolhida na sua singularidade.
Nenhum tipo de discriminação é explicável, mas aquela que discrimina pela deficiência tem um jeito torto de ver as vidas humanas: alguns cuidados parecem excepcionais, e outros não. Que um senhor idoso precise de ajuda para subir as escadas até o avião não é um problema, mas que uma menininha de dois anos não consiga se sentar na cadeira, é. Gostaríamos de acreditar que o desencontro entre o que foi pedido à empresa — o bebê conforto — e a resposta que a família recebeu foi fruto de falha de comunicação ou ignorância. Mas não há onde encontrar furos aqui: a informação fornecida pelos pais sobre a boa saúde de Nicole não abria margens para dúvidas. Tampouco se pode dar o benefício do desconhecimento a um médico perito que deve arbitrar entre riscos genuínos e direitos. Faltam palavras para dizer o que aconteceu, ficamos com o genérico nome da discriminação. Não saber como falar é um sinal do que ainda não reconhecemos como injustiça: a rejeição do corpo com deficiência.
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