Sandra Queiroz era uma mulher anônima, trabalhadora doméstica em casa de bairro chique de São Paulo. Em uma noite de domingo, transformou-se em “safada” que abandonou a filha recém-nascida em uma sacola ao pé de uma árvore. Foi vigiada por câmera que persegue delinquentes — lá estava ela, rondando a rua, deixando a sacola, espiando quem se aproximaria, descobriria o bebê e o acolheria. Nunca falamos com Sandra, mas sua história nos diz muito sobre abandono.
Sandra é mãe solteira de três. Tenta ajudar a sustentar o mais velho, de 17 anos, mesmo de muito longe. Da menina de 3 anos, cuida nos intervalos entre limpar chão e lavar louça da casa alheia. Para a recém-nascida, Sandra desejou algo que ela mesma não poderia oferecer. Deixou-a, agasalhada e alimentada, depois de uma gravidez que viveu só e em segredo, por medo de perder o trabalho, e de um parto desamparado em um banheiro. Hoje, Sandra aguarda sentença do que pode ser considerado crime, enquanto a bebê espera que lhe designem casa. Sandra foi chamada de monstro, mas é mulher desfeita em desespero, cujo sofrimento decidimos não ignorar.
Experiências de maternidade: verdadeiro ou falso |
A mãe da bebê abandonada |
A solidão da mãe que abandona |
Cartazes |
Experiências de maternidade: verdadeiro ou falso
Nenhuma mulher tem o dever de ser mãe.
VERDADEIRO. Não há uma natureza feminina que determine a maternidade às mulheres. O que existe é uma imposição cultural para que mulheres se tornem mães. A maternidade não é um destino; cada mulher deve poder escolher se quer ser mãe.
A maternidade é sempre uma experiência feliz.
FALSO. Para muitas mulheres, ser mãe pode ser motivo de felicidade, e isso é ressaltado nas narrativas mais comuns em filmes, livros e notícias. Mas não há regras para projetos de vida. A maternidade pode ser também uma experiência sofrida, como nos casos em que a gravidez não é desejada, ou em que é vivida em condições precárias, sem recursos materiais e apoio para dividir tarefas de cuidado. Achar que todas as mulheres deverão ser completamente realizadas e felizes com a maternidade é impor um mito que silencia experiências diversas.
Só loucura ou maldade explicam o abandono de bebês por mulheres.
FALSO. As razões para que uma mulher abandone um bebê são muitas e complexas, e não é incomum que envolvam gestações vividas em solidão e medo. No recente caso de Sandra, empregada doméstica que já era mãe, guardou segredo sobre a gravidez, pariu sozinha e deixou a filha numa sacola em um bairro chique de São Paulo, o sentido do feito só pode ser aquele atribuído por sua própria voz: para ela, o ato foi de desespero.
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2 comentários:
Desmitificar a obrigatoriedade da maternidade é importante. Por que jornais e opinião pública em geral olham apenas um lado da história e se esquecem do abandono e solidão que Sandra também sentiu?
Ester, sua dúvida é nossa também. As narrativas sobre maternidade pouco falam de experiências como a de Sandra, que se tornou mãe em situação de desespero. A desigualdade de gênero na divisão de tarefas de cuidado, que faz da mãe aquela que deve assumir a criação em qualquer circunstância, também contribui para que ignoremos o sofrimento de Sandra. Obrigada por estar aqui pensando conosco.
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