Bullying nas escolas

Acaba de começar a valer a Lei 13.185/2015, que criou o programa de combate ao bullying, traduzido para o português como intimidação sistemática. Diz a lei que a prática pode envolver agressões físicas, xingamentos, ameaças, isolamento, chacota e até assédio sexual. Talvez por isso usemos a palavra em inglês: para distrair o espanto de saber que pode haver tanta violência entre crianças e adolescentes no espaço escolar, que deveria ser seguro. O novo programa propõe reunir professoras, pais e mães e estudantes em iniciativas para prevenir e combater o bullying e dar assistência às vítimas, evitando a punição sempre que possível e privilegiando respostas pedagógicas coerentes com o que deve ser uma escola.

Mas um ponto da lei nos chamou atenção: fala-se em bullying como “ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente”. Se a lei não sabe o motivo do bullying, por aqui gostaríamos de arriscar uma resposta: é a reprodução de práticas discriminatórias que crianças não nascem sabendo — aprendem em casa, na rua, nos meios de comunicação, na própria escola. A motivação do bullying é a rejeição preconceituosa a pessoas negras, fora da heteronorma, a corpos diversos. Fazer de conta que não sabemos de onde vem o bullying não ajuda a combatê-lo. Para cuidar do bem-estar de crianças e adolescentes e ensinar cidadania, a saída não tem nada de nova: precisamos debater opressões na sala de aula.





Vozes da Igualdade entrevista Flora Egécia


 



Histórias de bullying homofóbico e transfóbico


 



As motivações aparentes do bullying


 



Cartazes


 

Vozes da Igualdade entrevista Flora Egécia*

Crianças negras sofrem bullying racista na escola. Como o cabelo tem relação com essa prática discriminatória?

É muito comum, no ambiente escolar, uma criança atacar a outra por motivos fúteis, “estou com raiva de você e vou te xingar”. E quando você é uma criança e tem o cabelo crespo, vão tentar atingir esse “defeito” em você. Então, vão te chamar de “cabelo bombril”, vão jogar coisas no seu cabelo, os coleguinhas colocam objetos no cabelo para ridicularizar. Enfim, as crianças fazem de tudo para hostilizar a característica que é o cabelo crespo. Isso acontece bastante com as meninas, porque é aceito que os garotos raspem os cabelos. É mais fácil para os meninos ocultarem isso e, geralmente, essa não é uma opção da criança, o pai automatiza esse processo de raspar o cabelo dos garotos, e às vezes eles demoram anos para conhecer o próprio cabelo, se isso vir a acontecer. E as meninas não podem raspar o cabelo, então o cabelo delas vai crescer, e elas vão usar ele alisado, o que é superagressivo, ou preso. O ambiente escolar é muito opressor, e as crianças percebem quando têm poder ou não. A criança branca ou com cabelo liso percebe que ela é mais vista, ouvida naquele ambiente, e mais querida também. Uma criança loira, ela é um anjinho, os professores, os pais, todo mundo se refere a ela com adjetivos impositivos, “você é minha princesinha, meu anjinho”, e uma criança negra, ela não vai receber esse tipo de elogio.

Como esse tipo de bullying afeta a formação escolar da criança?

Quando você tem uma característica física que não é aceita na sociedade, você se omite, se anula, porque não quer aparecer. Você não vai tirar uma dúvida na sala de aula, porque não quer aparecer, porque [assim] você vai chamar a atenção, e toda vez que você chama atenção, você sabe que vai ser reforçada aquela característica que não é desejada em você — ou você vai receber um comentário, ou um olhar diferente, ou então vai imaginar que alguém está pensando mal do seu cabelo. Essa pressão que a criança com cabelo crespo recebe, ela se converte nisso, na omissão na sala de aula, na autoanulação, e isso afeta diretamente a educação da criança, porque ela não vai tirar uma dúvida, ela não vai conseguir apresentar um trabalho direito, ela se vê numa posição vulnerável, e ela realmente está. Isso afeta diretamente a formação educacional dela. E a escola tem um papel muito importante de autorreconhecimento, então o que você se torna nesse ambiente escolar infantil é muito decisivo para o resto da sua vida. Mesmo que ela [a criança negra] receba uma educação muito afirmativa em casa, e os pais ensinem que ela é bonita, que tem que se sentir bem com a forma como ela é, na escola ela vai estar sozinha, ela não vai pensar dessa forma, porque na maioria das vezes os professores não vão pensar dessa forma — e são a sua referência de autoridade, inspiração —, e os alunos, absolutamente, não pensarão assim. [A criança negra] perde a sensação de pertencimento. A partir do momento que você percebe que você é negro, se torna negro, você passa a notar seus semelhantes de outra forma e se articula com eles, formando um grupo, e isso é o primeiro passo para a igualdade.

Como as escolas lidam com o racismo e o bullying racista?

A maioria das escolas não sabe lidar com isso, não ensina isso na sala de aula. O Estado criou a Lei n° 10.639/2003, que é a lei que obriga o ensino da história africana e afro-brasileira nas escolas. Isso foi em 2003, faz mais de 10 anos, e até hoje a maioria das escolas não aplicam [essa lei]. E, apesar de ser uma lei, ela não está incluída na proposta político-pedagógica das escolas. Mesmo sendo obrigatória. As escolas não sabem lidar com o tema, mesmo quando o Estado impõe que elas lidem com esse tema. Muitos professores alegam que não são racistas, então por que trabalhar esse tema na sala de aula? Como se fosse uma autodenúncia, não conseguem lidar com essa realidade. Também tem o obstáculo religioso: muitos professores associam a cultura africana e afro-brasileira à religiosidade, o que é associável realmente. Eles veem essas religiões como algo muito ruim, eles não aceitam que isso seja passado para os alunos deles. Nas poucas escolas que trabalham com o tema, que procuram executar a lei, os resultados são muito notáveis, não só nas crianças, mas também na vida da família da criança. As crianças chegam lá com essa identidade totalmente desconstruída e, a partir do momento que os professores vão trabalhando isso em sala de aula, trazendo essa sensação de pertencimento, trazendo a história delas, dando importância para as características, as crianças acabam levando isso para casa. [Há uma] mudança de atitude mesmo, por exemplo, a criança não querer alisar mais o cabelo, conseguir usar o cabelo solto de forma tranquila, e isso reflete na família dela. Então, os resultados de o racismo ser trabalhado em sala de aula são muito bons.

* Diretora do curta-metragem documentário Das raízes às pontas (2015), que aborda o resgate das raízes negras a partir dos cabelos crespos. O filme propõe estimular o público a se relacionar bem com o cabelo na forma natural e, consequentemente, promover a aceitação e a aproximação com a origem de sua cultura.

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