A bicicleta e a faca

Ele é um menino. Uma quase criança, ou um quase adulto. Mas se fez de bandido: com uma faca, matou o médico Jaime Gold. Jaime morreu: teve um fim brutal e imerecido. Sofremos pela vítima, e precisamos nos perguntar — por que isso acontece? A tragédia na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, conta uma história: a de um matador jovem com crimes terríveis. Mas outras tragédias também gritam: o menino criança não esteve na escola, a mãe perdeu-se em trabalhos miseráveis, a casa esconde-se em uma periferia pobre.





Os enquadramentos do menino-bandido


 



Quem é o menino?


 



O menino que ninguém
quer ver


 



Falador convidado


 



A biografia do crime


 



O medo vigia a desigualdade


 



Cartazes


 

Os enquadramentos do menino-bandido

Um crime terrível, dois enquadramentos. O menino acusado de matar o médico Jaime Gold com golpes de faca para roubar uma bicicleta foi descrito pelo jornal Extra e pela revista Veja. A revista seguiu a cartilha conservadora dos cadernos policiais e falou de falta de segurança. O jornal Extra resolveu fazer outras perguntas sobre o menino-bandido. Imprimiu na capa: “duas tragédias antes da tragédia”. Falava das tragédias da falta de escola, saúde, assistência à família, de um Estado muito ausente na vida de um adolescente negro e pobre — um Estado que só esteve presente pela perseguição policial.

A revista Veja não quis saber quem era o menino, e seus colunistas esbravejaram contra o jornalismo do Extra. A disputa não é apenas sobre como contar o caso, mas sobre o que fazer para que não se repita. Falar de desigualdades na vida do menino não justifica nem faz desaparecer a brutalidade do crime, mas nos provoca sobre as tragédias que escolhemos ver ou ignorar.

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Quem é o menino?

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O menino que ninguém quer ver

O crime terrível que matou Jaime Gold foi amplamente noticiado pela mídia brasileira e levantou discussões em torno da redução da maioridade penal. O enquadramento hegemônico das notícias narrou o suspeito do ato como um jovem de 16 anos que, por possuir diversas passagens pela polícia, seria um bandido perigoso e deveria estar atrás das grades. Nesse sentido, para evitar novos crimes cometidos por adolescentes, seria necessário um endurecimento da punição, e a resposta a isso estaria no sistema penitenciário e não mais no sistema socioeducativo. A surpresa ocorreu quando um jornal estampou em sua capa a manchete “Duas tragédias antes da tragédia: sem família e sem escola”. Com essa outra perspectiva, veio à tona a história de um menino que carregava uma vida precarizada pela fome, pela pobreza e pelo abandono.

Ao colocar fatos da vida do adolescente em evidência, o jornal não justificou o crime ou legitimou-o moralmente, mas possibilitou problematizar a ideia de que a redução da criminalidade no Brasil se daria com o encarceramento precoce de adolescentes. Ainda, mostrou que nosso grave problema de desigualdade social só causa espanto no momento em que ocorre um crime de horror, e não quando falta escola e comida. Infelizmente, essa é uma parte da história que ninguém quer ver. O enredo mais contado é aquele que mostra um bandido com uma longa carreira criminosa e que clama por mais severidade nas penas. Esse enquadramento pode até acalmar o sentimento de injustiça que um crime terrível provoca, mas nada resolve quanto aos problemas sociais e de violência do país. É o mesmo que cria a falsa ideia do castigo como solução para a redução da criminalidade e que ignora as tragédias antes da tragédia.

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Falador convidado

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A biografia do crime

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