Todo mundo na frente da tevê. No intervalo da novela, uma propaganda de perfume para o Dia dos Namorados. Casais trocam presentes, olhares ternos e abraços apertados, cheios de amor e carinho. Dois desses casais são do mesmo sexo. E foi assim que o mundo da família tradicional brasileira caiu. A polêmica sobre todas as formas de amar tomou a mídia e as redes sociais. Um pastor fundamentalista falou em boicotar a marca. E a gente aqui se perguntando: mas não era só um anúncio para vender perfume?
Cheirinho de homofobia |
Medo de perfume? |
O barulho do perfume |
A cara do perfume |
O perfume da histeria |
Cartazes |
Cheirinho de homofobia
Um cheirinho de homofobia está no ar. O objeto do bafafá foi uma peça publicitária em que dois homens e duas mulheres ousam se abraçar e trocar perfumes. Um pastor e político evangélico foi o criador da discórdia, e conclamou “pessoas de bem”, que “acreditam em macho e fêmea”, a boicotar a empresa da propaganda. De repente, comprar perfume tornou-se um ato imoral, capaz de anunciar de que lado da igualdade o comprador está.
Bom, nem tanto. Dias depois, outro pastor-político discordou do colega e disse que “a propaganda não mostra nada demais". Não mostra mesmo: é um retrato de um mercado atento à expansão de consumidores; quanto mais — gays, lésbicas, héteros —, melhor. Nada de novo, exceto o perfume da histeria religiosa.
×O barulho do perfume
Imagine a cena: um casal troca perfumes no Dia dos Namorados e se abraça. Agora, inclua na ideia casais gays e héteros e veicule em forma de propaganda em rede nacional. Pronto. Está armado um escândalo que ofende os conservadores de plantão. A propaganda só mostrou o óbvio: há amores que fogem à regra heterossexual. Sim, há mulheres que se relacionam com mulheres, homens que se relacionam com homens, e todos podem comemorar o Dia dos Namorados. E, se olharmos de perto, a diversidade que incomodou tanto não é tão inclusiva assim: todos os casais foram representados por pessoas que correspondem ao padrão de beleza hegemônico, são brancas e elitizadas, e não um retrato da diversidade brasileira. Apesar disso, as discussões na internet e fora dela giraram em torno do espanto pelo abraço gay. A patrulha conservadora logo se manifestou e pediu boicote à marca, alegando ofensa à família e à “gente de bem”.
O escândalo foi tão grande que os números de curtidas e descurtidas do vídeo no YouTube foram disputados entre aqueles que apoiavam a propaganda e aqueles que a odiavam. Denúncias de consumidores moralmente ofendidos pelo abraço chegaram ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária), que abriu processo sobre o comercial da marca. Tanto barulho por uma tímida demonstração de afeto em um anúncio para promover perfumes aos consumidores LGBT só mostra que a homofobia no Brasil está longe de acabar. Essa intolerância à expressão da diversidade em nosso dia a dia, seja em campanhas publicitárias, seja nas ruas, é a mesma que vitima uma pessoa LGBT a cada 27 horas no Brasil, segundo dados de 2014 do Grupo Gay da Bahia. O lado bonito dessa história foi ver o amor vencer a histeria conservadora, ainda que numa campanha publicitária.
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