Uma apresentadora de tevê branca e loira compartilha uma foto de suas babás negras. A apresentadora elogia as roupas das moças — “descoladas” foi sua palavra. De quebra, elogia a si mesma na estética e nas regras da casa, pois, como patroa, não exige que as moças usem uniforme branco. O que há de errado com uma foto bem-intencionada, tão parecida com outras formas de vida em espetáculo nas redes sociais?
Com a foto em si, talvez nada. As moças sorriem, parecem concordar com o clique. É do lado de cá, de quem admira a foto, que a complicação começa. Imagens não são interpretadas no vazio — atraem outras imagens que direcionam o olhar. E o que a foto atrai? Nosso recente passado de sinhás cordiais com escravas negras, nosso presente de hierarquia racial, em que muitas são as babás negras e poucas as modelos negras. A foto feliz nos perturba ao lembrar a desigualdade racista que não temos direito de esquecer, e que nossas boas intenções, sozinhas, não fazem sumir.
Racismos disfarçados |
Discriminação cordial não existe |
Faladora convidada |
A patroa do século 19 |
Perguntas para as branquinhas |
Cartazes |
Discriminação cordial não existe
O racismo no Brasil é cordial
FALSO. Não há discriminação cordial, o que há é racismo disfarçado. A hierarquia racial existe como violência e desigualdade: nossa população carcerária é predominantemente negra, e jovens negros são as maiores vítimas de homicídio no país. Mas a hierarquia racial também existe disfarçada com discursos afetivos que tentam naturalizá-la: mesmo que babás e patroas troquem confidências e sejam amigas, a cor de cada uma importa — e a das babás é, quase sempre, negra.
Só há racismo quando há intenção de discriminar pela cor da pele
FALSO. O racismo disfarçado, o que é culturalmente estabelecido, naturalizado, é o mais frequente. É aquele que ocorre em situações cotidianas, como quando uma pessoa esconde a bolsa ao passar ao lado de um negro na rua. Apesar de o racismo disfarçado se mostrar irrefletido, por não ter a enunciação da discriminação, suas consequências perversas são gritantes. Prova disso é que as negras brasileiras ainda possuem menor escolaridade e ocupam posições menos qualificadas no mundo do trabalho.
O racismo não acaba com boas ações individuais
VERDADEIRO. Dispensar o uso de uniformes brancos e permitir o uso de roupas estilosas não altera o regime de segregação que faz das loiras, modelos, e das negras, babás e empregadas domésticas. As relações sociais próprias da escravidão permanecem nos dias de hoje. Para começar a resolver o racismo no Brasil, precisamos, primeiro, reconhecer que ele existe.
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